O cachorro que fala
Estava saindo de casa quando ouvi uma voz.
- Ei, já está saindo e vai me abandonar aqui?Procurei, procurei, mas não tinha ninguém na sala. Carol ainda dormia no quarto e estávamos eu e o Suflair apenas. A Trufa também estava lá em cima com a Carol. Pensei que deveria ser da casa ao lado e voltei aos meus afazeres. Já estava bem atrasado.
- Ei, não finge que não tá me ouvindo. É contigo mesmo que to falando.
Olhei de novo e só vi o Suflair me olhando com aquela cara de Labrador pedinte, sentando na minha frente e com o rabo levemente abanando como se varresse o chão. Comecei a pensar “não, isso é absurdo, não rola”, mas parecia verdade. Virei as costas e novamente ouvi - Sim, sou eu mesmo. O seu cão.
Não! Dessa vez olhei rápido e o vi fechando a boca, mas deu para sacar que veio dali a voz. Suflair já não se preocupava mais em esconder e disse: tá assustado? Imagino. Mas sou eu mesmo. Seu cão. E eu falo.
Meu Deus!!! Meu cachorro fala! Eu estava estupefato, já pensava na incrível história para contar a todos. Imagina, um Labrador que fala. Isso iria mudar completamente a relação entre os humanos e os animais dali em diante. Enquanto eu andava pela sala já sonhando com a fama, ele me chamou:
- Lucas, em vez de ficar aí como um maluco, que tal me levar na rua? Tu já ia saindo pro trabalho e eu aqui, apertado, cheio de vontade de levantar a pata n’árvore. Depois eu faço na sala e tudo fica chateado.
- Pera aê - respondo - a primeira vez que você fala comigo e é para pedir alguma coisa?
- Sim, claro, queria o que? Que eu falasse que o dia tá lindo? Que gosto de gatos?
- Não…não sei. Eu não sei o que um cachorro diria.
- Mas eu sei. Eu quero sair. Tu é meu dono e eu dependo de você para sair. Não posso ir na rua sozinho.
- Pera aê. Mas você pode falar. Por que não pode sair?
- Porque sou um cachorro, cacete. Eu não sei o caminho da volta. Vou sentindo os cheiros e andando em frente. Aí passa um cachorro do outro lado e eu atravesso e sou pego por um carro. Além do que, cachorro na rua só de coleira.
- Pera um pouco. Você pensa, fala e não sabe sair sozinho?
- Eu só tenho quatro anos. Você deixaria seu filho de quatro anos sair por aí?
- Tá. Entendi seu ponto. Você quer na ir lá fora. Mas eu to atrasado. Mesmo.
- E daí? Acorde mais cedo. Eu dependo disso. Você sai e só volta de noite. Eu fico aqui latindo pra quem tem dono responsável e leva seus cachorros lá fora. Eles ficam me zoando e dizendo que eu to preso.
- Tá dizendo que eu não sou responsável? Tu dorme na minha cama, fica dentro de casa na chuva, passeia de carro, come do bom e do melhor, faz suas - DO BOM E DO MELHOR??? TU CHAMA ESSA COMIDA DE “DO BOM E DO MELHOR”??
- E não é?
- Quando era pequeno comia Eukanuba. Aí passaram pra Pro Plan e hoje é Pedigree. E ainda por cima todos os dias!! Imagina você comer a mesma coisa duas vezes por dia até o fim da sua vida?
- Já passei por isso quando minha mãe resolveu que lá em casa iam comer hambúrguer de soja. Mas você é um cachorro! Ração tem tudo o que você precisa.
- Mas não o que quero. Qual o problema duma carninha de vez em quando? Um bife, um frango, um gato?
- Pára com isso. Você come carne aqui. Come até sorvete. Outro dia limpou o meu prato de lasagna. E aquela vez que acabou com meu miojo? A única coisa que eu tinha pra comer em casa!!!
- Deu mole, otário.
- Olha…. sou seu dono.
- E eu tenho dentes.
- Você não pode dizer que sou um mau dono.
- Não é, mas esse tempo que tu tá aqui achando a coisa mais maravilhosa do mundo falar com o cachorro, nós já poderíamos ter ido lá fora e resolvido meu problema.
- Mas é a coisa mais maravilhosa!!! Você é um cachorro. Vou te levar pro Faustão e pro Fantástico. Vamos ficar ricos e aí terei tempo para te levar mais vezes na rua.
- Tu acha que eu sou burro? Tu vai é comprar um computador melhor e ficar lá o dia inteiro jogando Fifa. Ou tocando guitarra e destruindo meus ouvidos. Se tu me levar lá eu vou ficar quieto. E ainda mijo na perna do Faustão.
- Você não pensa no nosso futuro?
- Sou cachorro. Não penso. Tenho instintos. Mas afinal, vamos ou não vamos na rua?
- Pô, cara. To atrasado mesmo. Prometo que te levo de noite. Passeio maneiro, lá na praça que tu gosta tanto.
- Deixa de caô. Vai chegar cansado, levar a gente ali na esquina e voltar pro computador antes de sair pra jogar bola. Olha… vai lá. Vai trabalhar. Saiba que só vivo uns 15 anos. Cada dia que tu não me leva na rua é um dia perdido. Não volta mais.
- Prometo que a partir de amanhã e vou acordar cedo e te levar sempre. Você e a Trufa.
- Vou cobrar. Agora vaza que vou dormir. Preciso segurar a bexiga apertada.
- Suflair, não fica… - grrrrrrrrrrrrrrrr
- Tá bom, tá bom, não precisa rosnar. Até de noite.
Estou até agora confuso com essa história. Carol sempre me dizia que os bichos falam, mas eu achava que era sentido figurado.
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Mas antes que pensem que sou um dono desnaturado, saibam que não existe cachorro mais feliz e bem tratados dos que os meus. Quem conhece pode confirmar.
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Papai, e eu? Eu também falo. Quando eu vou ganhar um texto seu? Você só fala com o Suflair (pontinha de ciúmes)…