Uma semana sem o "Seu" Dantas

Esse talvez seja o texto mais difícil que já escrevi. Fiquei uma semana matutando sobre como começar, o que colocar, o tom, se deveria ou não fazer, até que hoje sentei na frente do computador e resolvi que era hora.

Faz uma semana que meu avô faleceu. Há uma semana que eu fui informado pelo destino que jamais veria novamente o homem mais corajoso que conheci. O patriarca da família se foi, mas deixou um legado que jamais se apagará. Seus quatro netos o amavam e tinham nele o exemplo a ser seguido em todas as instâncias: Generosidade, verdade, caráter, companheirismo, responsabilidade e respeito. Tudo nós aprendemos com ele e agora temos a missão de levar adiante. Não excluo o trabalho do meu pai, claro que não, mas o próprio também seguiu a linha do “Seu” Dantas e passou a mim e ao meu irmão. Nós dois nos esforçamos para seguir.

Meu avô era o que podemos encontrar como “avô perfeito” na enciclopédia. Amava os netos e fazia tudo por eles. Assustava a gente com sua rigidez, mas nos bastavam uns cinco minutos pensando para ver que aquilo era da boca para fora. Por dentro, ele tinha um coração mole como o prato de feijão com farinha carregado na pimenta que devorava diariamente. Vou tentar falar um pouco por mim.
Eu nunca fui de estudar. Meus pais tentaram me imputar esse costume até o dia que desistiram perante minha suprema e insuperável chatice. Meu avô, quando ainda tinha fôlego, não deixava barato e exigia minha presença em sua casa para passarmos a tarde com a cara enfiada nos livros. E não tinha como eu sair dali sem aprender. Não havia método de tortura ou pressão, não. Ele simplesmente ensinava e eu aprendia. Podia ser a matéria que fosse, dava uma pequena lida antes e depois dissecava o assunto para mim. Na época eu odiava, é claro, perdia uma tarde inteira naquilo enquanto meus amigos se divertiam com videogames e afins. Agora eu vejo a importância daqueles momentos e já decidi com a Carol que nossos rebentos passarão pela mesma aventura, agora com o futuro “Seu” Dantas.

Quando digo que ele era corajoso ao extremo, não me refiro àquela vez, lá pelos 60 e quase 70 anos de idade, que se lançou de uma pedra a uns 5 metros de altura numa piscina natural em Penedo, mesmo contra os berros histéricos da minha avó. Tampouco porque dirigia Rio-Maranhão num “Chevelho” parando apenas para uma esticada de pernas ou para tirar água do joelho. “Seu” Dantas encarou o exército, a aeronáutica, o governo e a torcida do Flamengo, sempre saindo vitorioso. Me lembro de um caso que me contou na única entrevista que deu na vida (para mim hehehe) que ilustra bem. Os detalhes eu vou passar ao largo, mas no fundo, foi assim.

Ele estava para receber a baixa da aeronáutica e sairia como Coronel, porque faltavam horas de vôo para ser promovido a Brigadeiro. Setenta e seis, para ser mais exato e só tinha uma semana até estourar o prazo. Como ele tinha lá seus problemas com alguns oficiais burocráticos, o pessoal não queria deixar que ele voasse, como punição por problemas causados no passado. Abro aqui um parêntese. Problemas, TODOS, causados por pessoas que apoiavam aquele regime nefasto que conhecemos pela alcunha de ditadura. Ele foi preso “n” vezes por rejeitar ter qualquer participação no esquema, além de ser comunista, prato cheio pros militares. Então ficaram muitas rusgas e sempre aparecia um babaca uniformizado para atrapalhar o que seria justo. Fecha parênteses.

Como não tinha nenhum vôo programado no prazo que dispunha, ele não poderia receber a baixa como Brigadeiro. O que ele fez? Foi na base aérea do Galeão, catou um avião monomotor e subiu. Por 76 horas ficou dando voltas na Baía de Guanabara, descendo para abastecer e voltando pras nuvens. Preencheu o tempo que faltava e recebeu sua baixa. Outros tentariam dar um jeitinho, uma graninha aqui ou ali. Ele fez o que deveria ser feito.

Outro caso marcante ocorreu quando ele seria julgado pelo que chamaram de “insubordinação no quartel”. Ele sabia que era um júri armado e que os juízes já estavam preparados para puní-lo. Mas ele precisaria estar no tribunal para que o processo fosse levado adiante. Quem disse que apareceu? Nada. Deixou o pessoal lá mofando e sequer deu satisfação. Sessão suspensa e marcariam nova data quando ele aparecesse. Três dias depois, sabendo que os membros do júri não estavam todos disponíveis, ele apareceu. Chegou ao tribunal e disse “estou aqui. Podem me julgar agora”. Foi uma correria para avisar todo mundo. Quando se reuniram, antes de qualquer coisa, disse para quem quisesse ouvir: “não os reconheço como tribunal, portanto não direi uma palavra sequer”. Ele sabia que seria punido pelas cartas marcadas, mas pelo menos deu uma senhora canseira no pessoal e mostrou que não era qualquer um ali.

Já caiu de avião no Golfo do México e costumava dizer que só não foi comido pelos tubarões porque estes sabiam de quem se tratava. Teriam indigestão. Falava da boca pra fora, para impressionar. Para mim, ele confessou ter sido o maior momento de medo em toda a sua vida. Me lembro de suas palavras “eu não me preocupava com o tempo que ficaria lá. Só tinha medo do tubarão” e silenciava como se lembrando das horas de horror que passou.

Histórias o “Seu” Dantas tinha aos montes. Adorava contar aos netos que ouviam pensando nos perrengues que ele passou e comparando com a vida fácil que temos. Minha avó, a fiel escuderia de todos os seus momentos, ficava ao lado acompanhando com olhar de admiração. Sabia que aquele homem era um caso raro.

Meu avô vai fazer muita falta. Por mais que tivesse passado os últimos cinco anos deitado numa cama, ele esteve sempre lá. As visitas no domingo à noite eram uma regra familiar incontestável. Desde os tempos no Leblon quando comíamos o lanche do Balada até as pizzas do Leme.

Agora falta um espaço no domingo. Mas acredito que ele esteja satisfeito com a vida que levou. Colocou dois filhos no mundo e pode se orgulhar deles. Ganhou quatro netos que o amaram até o último minuto e vice-versa. Sempre foi generoso e distribuiu essa bondade com familiares, amigos e até desconhecidos. Mesquinharia nunca fez parte do seu vocabulário. Sua missão foi cumprida com louvor e receberá medalhas de honra ao mérito no outro lado.

Falando nisso, ele costumava dizer que preferia ir pro inferno porque achava o céu uma chatice só. Claro que era brincadeira, pois ele sabia que o pessoal lá de cima estava louco para ouvir suas histórias. E não duvido que a primeira coisa que disse, assim que abriram a porta para ele, foi: “Ô João Saldanha, venha aqui. Você está me devendo uns 18 anos de colunas dominicais. Pode começar a pagar”, enquanto se acomodava na rede e virava uma cachacinha.


3 Comentários

  1. Não sei quem é vc… mas me senti próxima lendo esse texto. Lindo!

  2. Apesar de não ser meu avô de sangue, era de coração. Deixa saudades e boas lembranças…

  3. Lucas,linda homenagem!
    Sem palavras…


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