Hoje o mundo acordou com uma notícia daquelas que marcam o início de uma nova era. Depois de 49 anos, Fidel Castro anunciou sua renúncia ao cargo de dono da paradisíaca Cuba, encerrando uma luta contra o mais forte que nem Vercingetórix conseguiu manter por tanto tempo. Castro conseguiu sobreviver, mesmo que a duras penas, ao avanço dos “porcos capitalistas”, como ele mesmo dizia, vivendo a ilusão de um mundo que há muito havia sido dizimado. A URSS já não existe há quase duas décadas e Cuba era um sopro de socialismo ao meio de países submissos aos EUA.
O que Eurico tem a ver com isso? Ora pois pois. Qual o único clube brasileiro que se orgulha até hoje de ser uma lembrança da colônia de 500 anos atrás? Qual a torcida que possui dois países para vibrar em Copa do Mundo, sem ordem de preferência? Qual o clube que é comandado com mão de ferro por um ditador que ainda vive num período de amadorismo e já prepara seu discípulo para assumir e prolongar a dinastia eternamente?
Guardadas as devidas proporções, o Vasco da Gama é a Cuba do futebol. “A Cuba”, por favor, leiam direito. Há anos que vive nas trevas por causa de um dirigente que se recusa a largar o osso e abrir as portas do clube para a modernidade. As semelhanças são muitas. Em Cuba, as eleições presidenciais eram facilmente manipuladas. Um número X de congressistas era eleito pelo povo e apontavam que Fidel continuaria presidente. Até aí, tudo bem, não fosse o fato que não existia oposição. Todos os congressistas era pró-regime e abstenções não eram bem vindas (leia-se: paredão).
No Vasco, três chapas disputam a eleição, porém DUAS são do mesmo candidato (Eurico) e às vésperas do pleito, todos aqueles pró-Miranda que possuíam débitos, não tinham a situação cadastral regularizada ou mesmo os que estavam mortos (!!!) podiam votar sem problemas. Já os de oposição enfrentavam filas intimidadoras, fiscais que olhavam o voto sem nenhuma discrição e ainda saíam marcados do clube, como o repórter do jornal carioca que denunciou as fraudes. Ao final, tanto em Havana quanto em São Januário, o resultado era previsível.
Na ilha, tudo começou quando Fidel reuniu um grupo de amigos e depôs o presidente, pau-mandado dos EUA, colorindo de vermelho o regime político. Lógico que os ianques odiaram e meteram um tenebroso embargo comercial que afundou o país na miséria. Os inteligentes leitores da Veja (por mais contraditório que isso possa soar) ignoram isso e preferem comparar Fidel com Átila, o Huno, enquanto engolem as aventuras de Mickey Mouse e do Capitão América. Eu gosto dos EUA, mas não sou alienado e sei como as coisas aconteceram.
No Vasco, o início da draga deu-se em 2000 na final da Copa João Havelange. Depois da queda do alambrado de São Januário, a Globo viu ali a arma perfeita para começar a derrubar Eurico Miranda, até então, inatacável deputado-federal. Só num país como o Brasil que alguém como Eurico se elege deputado, mas vamos pular essa parte. A TV fez uma campanha forte para que o título fosse para o São Caetano, no que previa o regulamento, diga-se, e provocou uma atitude de igual criatividade e burrice por parte dos portugueses. Desfilaram com o símbolo do SBT na nova partida que foi marcada, obrigando a Globo a expor para o Brasil inteiro a marca de sua principal concorrente na época. Numa provocação sem precedentes na história do futebol brasileiro, o Vasco começou a desabar.
Eurico se achou o Rei, mas o time foi decaindo em campo. Os patrocinadores não apareciam mais e os títulos foram rareando. Concordo que a imprensa tem certa má-vontade com o Vasco, mas isso não é culpa do clube e sim de seu presidente. Um jornal venderia muito mais uma capa com “Vasco Campeão” do que “Romário não faz o Gol 1000 e Vasco é eliminado da Copa do Brasil pelo Gama no Maracanã”. Só que Eurico procurou isso, como Fidel. Ele vive num mundo onde acredita que o amadorismo ainda pode vencer. Onde uma entidade sem fins lucrativos possa controlar um time de futebol que visa mais o lucro do que as taças. Os demais times do Brasil, deficitários que são, já não brigam mais com a TV e sabem que dependem dela. Precisam lucrar para sobreviver.
Muitos sustentam o fracasso de Fidel apontando para os balseiros que saem da ilha em direção à Miami, onde são bem recebidos para lavar pratos, aparar gramas e morrerem de medo com o dia que o governo os deportará de volta. Alguns são tratados como refugiados políticos. Não é lindo o poder da mídia? O que ninguém fala é que tal como existem os fugitivos, também existem os contentes e isso é assim em qualquer lugar do mundo. No Brasil não foram poucos os que a apoiaram a ditadura militar. No Iraque, Saddam tinha milhares e milhares de seguidores fiéis. No Vasco não é diferente. E os que fogem do Brasil por não receberem educação, saúde, respeito e qualidade de vida, o que são? Se escondem de que ditadura?
Comparo os balseiros com aqueles torcedores que trocaram os jogos de domingo pelas praias ou shoppings. Tristes e desenganados com a equipe fraca e o com a política imperialista dos Miranda, preferem se ocupar de outros afazeres. Em jogos decisivos contra o Flamengo nem comparecem mais ao estádio. Porém, também temos os vascaínos que brigam por Eurico e defendem seu regime como um prato de comida diante de um somaliano. Acreditam que o presidente está sempre certo, que o Vasco precisa lutar contra os opressores e que os resultados dentro de campo são manipulados de forma a prejudicar o clube que não pode vencer nunca. Para eles, estamos todos contra o Vasco.
Eurico gosta desse jogo e se mantém no comando já preparando seu filhote. Sempre disse que só sairá do Vasco quando achar alguém igual ou melhor do que ele, ou seja, que mantenha a postura fechada e arredia ao progresso, por motivos que todos desconhecemos. O Vasco vai perdendo e Eurico não renuncia. Cuba também perdeu e Fidel deveria ter renunciado antes.
A sua luta contra a dominação americana foi linda, romântica e vitoriosa. Os EUA não conseguiram seu objetivo. Invadiram o deserto Afegão para detonar bombas em cavernas inabitadas. Estão atolados no Iraque onde foram atrás de armas que nunca existiram e enforcaram um presidente que jamais os havia atacado. Mas Cuba eles nunca invadiram. Um avião militar americano certa vez foi derrubado e quando os seus donos o pediram de volta, ouviram a resposta de Fidel “venham buscar”. Tudo muito bonito, mas se perdeu com o tempo. O regime não se sustentava mais, devido ao embargo mundial que não deixava Cuba crescer.
Hoje Fidel se despediu. Com certeza ele sabe que os americanos foram derrotados. Só mesmo o tempo poderia levá-lo e preferiu em vida do que morto sem poder se defender. Bushinho filho, o presidente dos EUA, certa vez disse que Deus levaria Fidel um dia. A frase é engraçada, pois Bushinho, católico fervoroso daqueles que só transam vestidos e de luz apagada, deveria ter dito que o Diabo levaria Fidel, já que, segundo ele, o barbudo nada mais era do que um ditador.
Agora Cuba viverá seu futuro e provavelmente se tornará um balneário americano. Seu povo será fotografado com sorrisos enquanto recebe os turistas com colares de flores e oferece bebidas refrescantes aos endinheirados branquelos. O mundo achará bom e ignorará o que a submissão dos capitalistas fez esse mesmo povo passar. Fidel errou no tratamento, mas não era a doença.
Talvez o mesmo acontecesse com o Vasco. Poderia ser mais bem tratado pela imprensa, os times não teriam mais ódio do clube, apenas a rivalidade sadia do futebol, os cariocas teriam novamente quatro equipes fortes no cenário brasileiro e os vascaínos retornariam aos estádios. Mas Eurico prefere seguir sua linha, como fez Fidel. Uma colônia soviética e outra portuguesa. Fidel venceu a sua luta particular. Renunciou porque quis e vai dizer para todos que não se subjugou ao mais forte. Ninguém teve sua coragem. Cuba, porém, estava perdendo e agora terá uma chance de começar nova era. Eurico não venceu. O Vasco está perdendo e o futuro que se desenha é pior. Já avisou que a dinastia continuará. A seca, provavelmente, também.
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